terça-feira, 29 de junho de 2010

Jennings continua. Na ‘Carta Capital’

Disponível em http://blogdojuca.uol.com.br/2010/06/jennings-continua-na-carta-capital/. Acesso em 29/06/2010.

28/6/2010 (Por Juca Kfouri às 11:20)

Jennings continua. Na ‘Carta Capital’

Por PAOLO MANSO

Andrews Jennings não é um jornalista esportivo, e sim um repórter investigativo.

Um dos melhores da Inglaterra, isso é testemunhado por décadas de colaboração com os principais jornais britânicos e a BBC.

Mas principalmente é o pesadelo de Sepp Blatter e da FIFA, aos quais dedicou um livro, “Foul ! The Secret World of FIFA: Bribes, Vote-rigging and Ticket Scandals (em livre tradução, Falta ! Subornos, Compra de Votos e Escândalos com Ingressos), publicado em 2006.

Por que o senhor é o único jornalista do mundo com acesso proibido nas entrevistas à imprensa com Blatter ?

Porque há anos procuro em vão ter respostas do chefe da FIFA sobre corrupção e propinas, baseado em muitos documentos “confidenciais”.

Com muita probabilidade cansou-se de não responder e preferiu condenar-me ao ostracismo, o que de certa forma me deixa orgulhoso.

Quer dizer que mister Blatter tem medo das minhas perguntas.

Em quanto importa, segundo seu parecer, a quantia das propinas pagas pela FIFA nos últimos 20 anos ?

Segundo estimativa do Tribunal de Zug, na Suíça, o valor, limitado apenas aos anos 90, é estimado em aproximadamente 100 milhões de dólares.

Todo esse dinheiro acabou nos bolsos dos funcionários esportivos que estavam sob contrato, quase todos eles com a FIFA.

Quando o senhor começou a recolher as primeiras provas de corrupção?

Trabalhei durante anos sobre o tema corrupção na FIFA, juntamente com um colega alemão. As nossas suspeitas eram fortíssimas, mas não tínhamos provas porque a ISL, a sociedade que geria antes o marketing e em seguida os direitos de tevê da FIFA, era uma companhia fechada.

Impossível receber informações transparentes sobre suas operações de balanço.

Todavia, quando faliu de forma fraudulenta, seus livros contábeis foram colocados à disposição dos curadores falimentares, bem como dos tribunais.

E foi justamente nos tribunais que tivemos a confirmação, com provas, daquilo que suspeitávamos, mesmo se a realidade superava nossa imaginação.

A corrupção na FIFA como e quando começou ?

Em 1976, o então presidente da entidade, o britânico Sir Stanley Rous, foi deposto.

Ninguém podia corromper Stanley.

Em seu lugar entrou o brasileiro João Havelange, que era muito corrupto.

Foi ele que inaugurou o “sistema”, recebendo propinas via ISL.

Sua afirmação é grave. Ela se baseia em que ?

Em
testemunhos que recolhi de ex-integrantes da FIFA, altos dirigentes.

E em documentos.

Havelange chega e traz Ricardo Teixeira. Com qual resultado ?

Um “boom” de corrupção !

A imprensa suíça escreveu que Havelange e Teixeira embolsaram a maior parte das propinas.

No decorrer da transmissão do programa Panorama, da BBC, perguntei em três ocasiões a Sepp Blatter o que ele sabia sobre as propinas embolsadas por Havelange e ele sempre ficou calado. Pedi também informações de uma específica propina, mas também neste caso Blatter fez cena muda.

De qual propina se tratava ?

De 1 milhão de francos suíços que deveriam acabar nos bolsos de Havelange.

Por um erro foram depositados numa conta da FIFA, provocando o pânico entre os dirigentes honestos da organização. Posso garantir que havia três pessoas numa sala da FIFA quando chegou aquele pagamento: Sepp Blatter e outros dois dirigentes.

Falei com este que me confirmaram que o destinatário da propina era Havelange.

Um dos dois entregou uma declaração oficial e assinada aos advogados da BBC, na qual afirmava que, em caso de processo por parte da FIFA contra mim e a BBC, ele compareceria no Tribunal para confirmar que o pagamento era para Havelange.

O mesmo, porém, pediu para não ser citado na reportagem que foi divulgada pela BBC, e que qualquer um pode apreciar na internet.

O pagamento teria sido por quem ?

Pela ISL, no início de 1998.

E o que há em relação a Teixeira ?

Bastaria olhar os documentos da acusação criminal depositados à margem do processo de Zug.

Em relação aos depósitos feitos pela ISL, há um para a RENFORD INVESTIMENT LTD., sociedade controlada por Havelange e Teixeira.

Andrew Jennings vem aí

Disponível em http://blogdojuca.uol.com.br/2010/06/jennings-vem-ai-2. Acesso em 29/06/2010.


29/06/2010

Jennings vem aí

Andrew Jennings vem ao Brasil participar de um painel sobre investigação jornalística no mundo esportivo.

O repórter vai fazer uma palestra no 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo ao lado do jornalista brasileiro Fernando Molica, de “O Dia”.

Jennings, que já trabalhou para diversas publicações britânicas e apresentou programas na BBC, escreveu dois livros sobre corrupção dentro do Comitê Olímpico Internacional e outro sobre a FIFA.

Os insistentes questionamentos do repórter levaram Joseph Blatter a proibi-lo de fazer parte das entrevistas coletivas da entidade – ele é o único jornalista do mundo banido pela FIFA.

O 5º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji acontece de 29 a 31 de julho, no campus Vila Olímpia da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo.

Informações sobre o Congresso em:
ou
http://www.abraji.org.br/
ou ainda no telefone 11-28510699.

Por Juca Kfouri às 11:28

Enquanto torcemos maravilhados...


18/10/2009

A verdadeira identidade do COI

por Andrew Jennings

Tempos de festa, todos queremos participar das Olimpíadas do samba em Copacabana em 2016. Vários jornalistas tentam entender porque os brasileiros conseguiram levar os jogos.

Dez anos depois do escândalo de Salt Lake City, onde vários membros do COI foram assediados com dinheiro e garotas de programa para tentar garantir os jogos olímpicos de inverno de 2002 para aquela cidade, o atual presidente do COI, Jacques Rogge, garante que isso faz parte do passado.

De qualquer forma, vamos derrubar esse tabu do mundo olímpico. Vamos falar abertamente sobre o tradicional hábito da corrupção olímpica.

Pergunta: Qual foi a voz mais poderosa que trabalhou para o Rio dentro do COI? Dê um passo a frente o membro mais antigo, com 46 anos de serviços prestados, ex presidente da FIFA e acusado pelo renomado programa da BBC sobre negócios públicos (sim, eu dou nome aos bois) de estar profundamente envolvido em subornos e propinas.

Se trata de João Havelange, hoje com 93 anos, o homem que sabe tudo que realmente importa sobre os membros do COI. Eu não estou afirmando que ele ou o Rio pagaram propinas, mas veja o que segue. No começo da semana, logo após a vitória do Rio, um fotógrafo atento pegou Havelange cumprimentando... Jean-Marie Weber, o homem da mala.

O homem da mala admitiu para a justiça suíça no ano passado, ter pago USD 100 milhões em propinas para dirigentes esportivos nos anos 90. Então, porque eles estavam se cumprimentando?


Havelange, o "homem da mala" e Blatter nos bons tempos.

O homem da mala é muito apreciado pelos membros do COI. Nós o filmamos conversando ao pé do ouvido com o chefão do futebol africano, Issa Hayatou, e tentando passar despercebido no Bella Center (centro de convenções de Copenhague, onde aconteceu a eleição da sede dos jogos 2016), e dando tapinhas nas costas de outros membros do COI. Eles votaram no Rio de Janeiro? Eles não vão dizer...

E lá estava também Joseph Blatter, funcionário da FIFA por mais de 30 anos, grande amigo do homem da mala e agora membro do COI. Blatter esteve envolvido nos escândalos de corrupção do homem da mala e ainda obedece às ordens de Havelange.

Parecem velhos amigos jogando seus velhos jogos em um novo cenário. Foi muito cativante ver Havelange sentado na sessão do COI ao lado do seu velho companheiro, o russo Vitaly Smirnov, sortudo por ter mantido a sua cadeira no COI após o escândalo de Salt Lake.

Antes mesmo da votação, Havelange se vangloriava dizendo que ele já tinha 20 votos no bolso. Ou ele quis dizer no bolso do homem da mala?

Mais um velho amigo - e uma pista de que há outros membros do COI que querem voltar no tempo, à uma época macabra.

Um discurso fundamental foi feito pelo ambicioso alemão e vice-presidente do COI, Thomas Bach. Quando ele terminou, Blatter o aclamou como "presidenciável".

O que Bach deveria dizer aos membros do COI? Ele disse que todos eram importantes, mas que deveriam se manter independentes sem nenhuma ingerência externa. Essa foi uma indireta para alguns novos membros de federações que coagiram o COI após o escândalo de Salt Lake em 1999. Eles não são independentes e os outros membros do COI ficam incomodados com a presença deles no conhecido "The Old Boys Private Club".

Bach perguntou à platéia: Vocês querem um COI composto principalmente por membros independentes que detêm autoridade, conhecimento e experiência, também na política, negócios, cultura e sociedade? Essa foi a senha. Não há nenhuma menção ao esporte. Muitos membros do COI têm um conhecimento estreito do mundo esportivo.


Thomas Bach em Copenhague. Em busca de um retrocesso?

Qual é o histórico de Bach no esporte? Ele conquistou uma medalha de ouro na esgrima em Montreal e logo depois foi contratado para o renomado time da Adidas de "Relações Internacionais", também conhecido como o "esquadrão das jogadas sujas", que moldou organismos como o COI, FIFA e várias outras federações internacionais segundo os anseios do lendário e obscuro negociador Horst Dassler, filho do fundador da Adidas. A sua nova empresa, a ISL, ganhava os grandes contratos do marketing esportivo e o homem da mala entregava as propinas...

Dassler foi quem colocou Havelange na presidência da FIFA em 1974 e também escolheu Blatter como o seu braço direito.

Quando Jacques Rogge deixar a presidência do COI daqui há quatro anos, Thomas Bach será eleito presidente e muitos verão o COI deixar de lado as tímidas "reformas" e retornar à sua velha identidade.

E numa tumba distante, Horst Dassler, que morreu em 1987, ainda vai constatar maravilhado que mesmo depois de mais de duas décadas enterrado ele ainda detém o poder no mundo esportivo.


Horst-Dassler - O inventor da propina no esporte.

Veja o artigo original de Andrew Jennings no Sunday Herald - It may be a new stage but is game still the same?

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Os cinco hipócritas de 2009

Comentei no texto anterior os conceitos petistas de estadista e de soberania. No dia 20/12/2009 o jornal El País, da Espanha, publicou uma matéria enumerando os cinco hipócritas de 2009. O Presidente Lula da Silva foi um deles. E o autor da matéria enumera as contradições que lhe deram este “título”.

Transcrevo, abaixo, parte desta matéria. Quem desejar ler a matéria original encontrará o em http://www.elpais.com/articulo/internacional/hipocritas/2009/elpepiint/20091220elpepiint_7/Tes.

Cinco hipócritas de 2009

Moisés Naím, 20/12/2009

RRever algumas das mais flagrantes a hipocrisia dos poderosos do mundo é instrutiva. Revela as tendências globais, as contradições e vulnerabilidades elite da moda. É por isso que eu decidi oferecer a minha lista muito pessoal e subjetiva de algumas das grandes hipócritas de 2009.

1. Banqueiros.

2. Tony Blair.

3. Os homens líder do Partido Republicano.

4. Os juízes britânicos que emitiu o mandado de Tzipi Livni.

5. Lula da Silva. O Presidente do Brasil declarou que Hugo Chávez é o melhor presidente da Venezuela dos últimos 100 anos. Nunca ouvimos Lula falar das condutas autoritárias do seu amigo venezuelano, mas temos visto atacar furiosamente as recentes eleições em Honduras. E na mesma semana recebeu Mahmoud Ahmadinejad com todas as honras, cuja vitória eleitoral também é questionada. O que tiveram as eleições no Irã que as de Honduras? Tiveram uma enorme fraude, morte, tortura e brutal repressão ordenada pelo governo de Ahmadinejad. O afável líder brasileiro parece não haver tomado conhecimento.

Quem é e quem não é estadista?

A militância petista repete ad infinitum que Lula é um estadista. Dilma diz que Serra não é estadista. Afinal de contas, o que é ser estadista? Deve ser algo muito importante e interessante para o Partido dos Trabalhadores. Segundo o dicionário Aurélio, estadista é uma “pessoa de atuação notável nos negócios políticos e na administração de um país; homem ou mulher de Estado”. O estadista é, então, alguém ligado a um Estado que rege os seus negócios políticos e a sua administração. Se Lula é um estadista, é um estadista em relação ao Estado brasileiro. O mesmo se deve dizer a Serra.

Devemos pensar no Estado como uma unidade em oposição a outras unidades. Desta forma, negócios do Estado A pode ser favorável ou desfavorável ao Estado B. Churchill é tido comum exemplo de Estadista e como tal derrotou Hitler e Mussolini. Na concepção de Dilma ele interferiu na soberania da Alemanha e da Itália. Mas ele, como homem de um Estado, tinha compromissos de preservação da soberania e da sua população. E foi exatamente isto que lhe valeu o seu reconhecimento como estadista.

Serra fez críticas ao Presidente boliviano a partir de um fato e de uma reflexão: mais de quatro quintos da droga que entra no Brasil vem da Bolívia. A coca é uma planta relacionada com a cultura de grupos tribais bolivianos e usada para compensar os efeitos das alturas andinas. Mas também é transformada em droga por processos químicos. A área de plantio, antes suficiente para a produção local foi multiplicada por três. Por um processo de raciocínio, Serra chegou a conclusão que o Presidente boliviano tem interesse no tráfico e por isto “faz corpo mole”.

Dentro deste raciocínio, se o Presidente boliviano “faz corpo mole” por que lhe interessa pelo fluxo de dinheiro proporcionado pelo tráfico, ele se torna conivente.

Dentro deste raciocínio, o tráfico de droga e de armas é bom para a Bolívia. Ou para algum grupo boliviano. Até aí tudo bem. Acontece que o que é bom lá, é péssimo aqui. Aumenta o número de viciados e o custo com a saúde e com a segurança pública aumenta.

Serra é candidato e espera ser eleito. Se alcançar os seus objetivos, serão problemas que terá que resolver. Preocupa-se, de antemão, com os negócios políticos e com a administração quando for eleito. A sua atitude, nesta crítica, foi de estadista. Não seria se tivesse a mesma forma de pensar de Dilma, sua opositora na campanha presidencial.

Serra interferiu na soberania do país vizinho. Em primeiro lugar a soberania não é absoluta, pois o que acontece num país interfere em outro. Como o caso das drogas e a sua interferência no Brasil. O Estado prejudicado passa a ter o direito de agir com palavras ou com atos. Foi o que aconteceu.

Nos últimos oito anos tem havido uma confusão muito grande entre interesses de Estado e interesses de partido. A política externa brasileira, em sua grande parte, não tem se orientado por interesses de Estado, mas por interesses de partido. E isto tem levado a associações políticas com muitos caudilhos. O caudilhismo parece ser interesse partidário, mas não é interesse de Estado e da população que saiu de um regime discricionário há três décadas.

Estes interesses partidários têm trazido prejuízos morais e financeiros. Como foi o caso das refinarias da Petrobrás encampadas pelo governo boliviano. Houve prejuízo ao erário em face de o governo brasileiro ser o maior acionário e este prejuízo será transferido aos contribuintes e consumidores de combustíveis, que somos nós.

O governo brasileiro não tomando qualquer atitude traiu os seus cidadãos. É o Presidente não agiu como estadista.

As pessoas públicas devem usar corretamente os conceitos, pois isto voltará contra elas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O que é liberdade?

 
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Escrevi este texto há algum tempo. Foi lembrado por uma amiga e postou em um tópico de uma comunidade do Orkut. Se serviu para uma reflexão lá, talvez sirva aqui. E é por isto que estou compartilhando com os leitores deste blog.

A liberdade não é só sair de trás das grades. Esta é a liberdade física. A verdadeira liberdade é poder ser, poder pensar, poder falar. É deixar falar e deixar pensar. A verdadeira liberdade é aceitar o outro, o diferente.

Liberdade não é dizer "eu sou livre"; a verdadeira liberdade é ser livre.

A verdadeira liberdade não é ter a liberdade de ser submisso ao pseudo legalismo; é ter a liberdade de dizer não ao autoritarismo e enfrentá-lo.

Ter liberdade é poder olhar nos olhos dos outros e fazer com que os seus descendentes se orgulhem de você. Inclusive pelos seus erros.

Ser livre é ser ético. É respeitar. Não é vestir máscaras para praticar chacotas.

Muita gente foi presa durante a ditadura e não aprendeu a ser livre; tornou-se simplesmente liberta. Ser liberto não é ser livre.

Não é fácil ser livre. Pouquíssimas pessoas são livres.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Começando...

Apresentação

Tenho um blog (http://mcherobim.multiply.com/), no momento em ritmo lento, que se pode considerar como memorialista; nele conto e comento fatos de Morretes, ou relacionado a ela. Sendo memorialista, são fatos vistos pelos olhos de quem os escreve. E quem interpreta fatos a ele contados. O autor é um morretense.

Alguns me chamam de saudosista. Talvez seja. Quem não o é? Todas as narrações são passadas; contamos fatos que aconteceram. Exceção quando fazemos uma ficção ou uma projeção de futuro. Mas somente a fazemos a partir de um acontecimento, ou de fatos, que aconteceram e passaram a fazer parte da nossa experiência de vida. Voltamos ao passado.

Diz-se, de forma um tanto poética, que o presente não existe; somente o passado e o futuro. Nós somos um nexo entre estes dois tempos sem nos apercebermos. E de uma rapidez fantástica, pois o que é instantaneamente se transforma no que foi. E o que será? Esta é a incógnita. Mas pode ser uma reconstrução esperada de um a de vir.

O memorialista pode ser alguém que pretende construir um futuro com base no passado. Então um saudosista? Talvez um realista, pois o que realmente existe é o passado.

Foi pensando desta forma que iniciei o blog que comentei. O blog do morretense. Neste blog será o profissional, o antropólogo, quem vai escrever. Não que possamos ser duas pessoas diversas, mas vou temperar (seria o termo?) a escrita informal com fatos de pesquisas, interpretações de acontecimentos, etc., sempre através da "cabeça do antropólogo".

Quem sou eu? "Memorializando"...

A minha vontade era ser caminhoneiro, como o meu pai foi. Cursei o ginásio e por obrigação me transferi para Curitiba. Cursei o primeiro ano do então curso científico. Nesse ano minha mãe agravou a sua doença e o meu pai precisou parar de viajar. Contratou um motorista. No final do ano fui promovido para o segundo ano, mas resolvi interromper o curso para tocar o trabalho do meu pai.

Durante um ano viajei pelas estradas de terra do Paraná transportando combustível. Naquela época do Departamento de Trânsito paranaense fornecia uma habilitação provisória de aprendiz de motorista aos que completassem 17 anos.

No ano seguinte precisei fazer o serviço militar. Escolhi a Força Aérea. Após realizar o treinamento básico, de recruta, fiz a inscrição num curso de cabo auxiliar de mecânico em sistemas hidráulicos. O meu objetivo era me preparar profissionalmente para trocar o caminhão por máquinas de terraplanagem. Construíam-se as estradas do Paraná abrindo um mercado e trabalho rendoso para donos de caminhões e de máquinas.

O curso seria no Parque de Aeronáutica de São Paulo. Mandaram que os candidatos ao curso esperassem o avião no quartel. Num final de semana o avião chegou e eu havia "fugido" para passar o final de semana em Morretes. Perdi o vôo. Apesar de todas as ameaças não fui punido. Resolvi, então, fazer o curso de cabo radiotelegrafista auxiliar. A minha grande motivação para o curso era escapar dos serviços de guarda.

Eu e mais dois não fomos aprovados no exame final, mas mesmo assim fomos promovidos a soldado de primeira classe. Os três aprovados foram promovidos a cabo. E aconteceu o inesperado: os três reprovados foram engajados e transferidos para São Paulo. A viagem foi de trem e aqui chegamos no dia 7 de fevereiro de 1957 depois de 36 horas de viagem.

O nosso trabalho foi o de organizar o Centro de Mensagens da estação rádio principal do Serviço de Rotas, no Aeroporto de Congonhas. Por ali circulavam algumas centenas de mensagens por turno de seis horas. Organizamos. Era um serviço desgastante. Eu e um colega começamos a treinar radiotelegrafia no período noturno. Os sargentos nos ajudavam. Em seis meses fomos considerados aptos para concorrer a escala de operadores de radiotelegrafia e nos tornamos os únicos soldados de primeira classe que concorriam a escala junto com sargentos.

No ano seguinte (1958) nós três resolvemos fazer um novo curso de cabo radiotelegrafista auxiliar na então Base Aérea de Santos. Na metade do curso eu e o amigo radioperadores fizemos um concurso para terceiro sargento radiotelegrafista de terra voluntário especial. Incorporados, fomos para o Rio de Janeiro fazer um curso de especialização.

Após o curso retornei para São Paulo e fui indicado para trabalhar na estação rádiode Goiânia. Seis meses depois fui para Xavantina, hoje Nova Xavantina. Cheguei em Xavantina cerca de cinco horas depois que os revoltosos da rebelião de Aragarças fugirem para a Bolívia (continua)